Problemas auditivos na infância interferem no desenvolvimento da linguagem

aconselhamento familiarA audição informa sobre as atividades que ocorrem à distância, funcionando como um alerta e defesa contra o perigo e é um dos sentidos fundamentais para compreender o mundo que o cerca (Russo e Santos, 1994).

O processo de maturação do sistema auditivo central ocorre durante os primeiros anos de vida. A experiência auditiva neste período de maior plasticidade cerebral, onde novas conexões neurais se estabelecem, é imprescindível para garantir o desenvolvimento da audição e da linguagem (Northen e Downs, 2002). Assim, a identificação e intervenção precoces da surdez possibilitam ao deficiente auditivo alcançar desempenho comunicativo muito próximo ao das crianças ouvintes.

No que diz respeito à sensibilidade auditiva é fundamental para a aquisição e desenvolvimento normal da linguagem oral a integridade anátomo-fisiológica do sistema auditivo. Segundo CARVALHO (1994), a perda auditiva, mesmo discreta, pode alterar o desenvolvimento da comunicação oral.

A deficiência auditiva é a doença mais frequente encontrada no período neonatal quando comparada a outras patologias. Só como exemplo, o Teste do Pezinho aponta uma criança em cada 10 mil nascimentos, muito menos que o da Orelhinha. Portanto, o Teste da Orelhinha é algo fundamental ao bebê, já que os problemas auditivos afetam a qualidade de vida da criança, interferindo no processo da fala, entre muitas outras coisas. (Russo e Santos, 1994).

O diagnóstico precoce da deficiência auditiva é de essencial importância para prevenir ou diminuir os possíveis agravos e desvios que possam surgir no desenvolvimento da criança ( Oliveira et al., 1998 ).

É durante os três primeiros anos de vida que a criança experimenta os estágios mais intensos de desenvolvimento da fala e da linguagem. Se, durante estes estágios, ocorre a perda auditiva, a exposição aos estímulos será limitada e provavelmente esta criança apresentará dificuldades na aquisição da fala, linguagem e, posteriormente, dificuldades educacionais (Tye-Murray, 2008).

Audição e linguagem

Um dos sentidos mais importantes para o desenvolvimento completo da criança é a audição. O bebê já escuta desde bem pequeno, antes mesmo de ser erguido pelo doutor em sua apresentação ao mundo. Isso acontece a partir do quinto mês de gestação, onde o bebê ouve os sons do corpo da mamãe e sua voz. É através da audição e da experiência que as crianças têm com os sons ainda na barriga da mãe que se inicia o desenvolvimento da linguagem. Qualquer perda na capacidade auditiva, mesmo que pequena, impede a criança de receber adequadamente as informações sonoras que são essenciais para a aquisição da linguagem.

A atividade interpretativa da mãe é essencial para a aquisição da linguagem e construção do sujeito. Esta relação, o tipo e grau de linguagem, a modalidade gestual e ou oral, usada pelas mães e crianças são atribuídos à representação ou imagem que um vai construindo do outro, enquanto interlocutor. O papel do adulto é fundamental, pois ele introduz a criança no universo linguístico desde que ela nasce ( Zorzi, 1993; Freire,1996 ).

O ideal seria que todas as crianças fossem submetidas a uma avaliação audiológica no período neonatal. Uma perda de audição não identificada pode ter consequências devastadoras sobre o desenvolvimento da palavra e da linguagem da criança, mas também sobre seu comportamento psíquico e social (Oliveira et al., 1990; Roslyng – Jensen, 1997 ).

A incapacidade de ouvir ou de compreender a palavra inevitavelmente conduz à incapacidade de falar. Neste caso, a criança utiliza gestos para comunicar-se e expressar seus sentimentos e consequentemente ocorre uma drástica redução nos meios de adquirir conhecimento e de compreender as reações emocionais dos outros. Assim, seu desenvolvimento emocional e intelectual sofre grave prejuízo (Tucker, 1995).

Ao nascer a criança passa por um processo contínuo de aprendizagem. A família neste processo é essencial, pois eles serão a base facilitadora para um desenvolvimento normal da linguagem ( Zorzi, 1993).

A família é considerada um sistema em constante transformação ou um sistema que se adapta às diferentes exigências das diversas fases do seu desenvolvimento. Então, alguma mudança de comportamento em um desses membros afeta todos (Minuchin, 1988).

Reação da família e aconselhamento

A descoberta da deficiência auditiva na família provoca situação de crise entre eles, surgindo, o medo, frustações, desespero, pois os pais não sabem como ajudar o filho, desconhecendo a possibilidade de recuperação (Cole, 1992).

Então, o período de diagnóstico se torna essencial para conscientizar os pais em relação à surdez, sempre respeitando os seus sentimentos que, de acordo com Luterman (1987), passa por quatro estágios: negação, resistência, afirmação e aceitação.

O avanço nas pesquisas em aconselhamento tem gerado novos questionamentos exigindo aprofundamento. Neste contexto o aconselhamento é considerado muito valioso para os profissionais, por proporcionar troca de experiências entre os sujeitos, modificando a visão dos pais, aumentando o esclarecimento e diminuindo ansiedades. Existem alguns programas de treinamento colocados em prática, pelo fato de não ter preparação adequada durante a formação (Culpepperet al, 1994; Crandell, 1997). Esse mesmo autor relata que, nos últimos cinco anos, estão aumentando esses programas e, em alguns cursos de mestrado e doutorado, incluindo como disciplina, no intuito de expandir esse aconselhamento (Inglês e Weist, 2005).

O aconselhamento em grupo com esses pais é importante, pois propicia o contato entre eles, fornecendo informações de apoio, orientações fonoaudiológicas e possibilidades de compartilhar sentimentos, dúvidas e anseios, repercutindo positivamente em relação ao aconselhamento informativo.

Um programa de aconselhamento adequado e adaptado às diferentes condições socioeconômicas e culturais permitirá o desenvolvimento de novas atitudes dos pais em relação a deficiência dos filhos.

As orientações dos profissionais devem ser cuidadosas e claras, a fim de evitar insegurança e ansiedade, expectativas irreais ou reações inadequadas dos pais, que podem ser mais prejudiciais do que a deficiência em si. Ouvirem os pais, serem compreensivos, oferecerem respostas diretas e informações objetivas são algumas das recomendações aos profissionais (HOLZHEIM et al., 1997).

Um programa de orientação pode associar conhecimentos sobre o funcionamento familiar, estratégias efetivas de intervenção, integrar diferentes abordagens e terapêuticas baseadas em necessidades identificadas, considerar as dificuldades vivenciadas, as relações interpessoais, os problemas de desenvolvimento, as possibilidades de estimulação e formas mais adequadas de cuidar da criança, visando à melhoria do desenvolvimento pessoal, o crescimento das relações familiares e resgatando o papel da família no desenvolvimento do indivíduo com necessidade especial (COLNAGO, 2000; SIGOLO, 2002).

Os profissionais percebem que as necessidades humanas e emocionais devem ser tratadas antes das especiais, e é enfatizada também a importância de ouvir a família, dando-lhes espaço para expressar ideias e sentimentos, criando um clima de conforto (Melo, 2012).

 

Claudia Mello é fonoaudióloga, com especialização em Audiologia e em Fonoaudiologia Hospitalar (Esamaz-PA). Tem especializacao em Habilitação e Reabilitação auditiva em crianças (FOB/USP ) e é fonoaudióloga no Hospital Universitário Bettina Ferro de Souza (HUBFS).

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Juliana Tavares

Juliana Tavares é jornalista, empreendedora, editora de conteúdo e diretora de atendimento da j2 Comunicação. É, ainda, colaboradora da Eaxdesign, em portais de negócios, comportamento, inclusão social e turismo.

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2 comentários

  1. Dedicated servers disse:

    Observou-se preval ncia do grau de perda profundo ocorrendo nas etapas de aquisi o, desenvolvimento e abrang ncia da linguagem. A an lise dos nossos resultados permite concluir que a altera o de linguagem est associada diretamente ao grau de perda auditiva e queixa de linguagem.

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