Prevalência de zumbido na cidade de São Paulo

zumbido na cidade de São Paulo

De acordo com o censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), de 2010, a cidade de São Paulo tem uma população de 11.253.503 habitantes, com taxa de natalidade de 15,59/1000. Os idosos representam 12,5% da população, e os analfabetos 3,1%. A renda anual percapita é de R$ 39.445,20 e 58,4% da população têm ensino médio completo. Estas características sociodemográficas da cidade de São Paulo traduzem um perfil que é similar ao observado na maioria dos países europeus. O processo de transição demográfica, observado com queda da fecundidade e aumento da sobrevida influi diretamente na estrutura etária da população, que vê transferida para os idosos a responsabilidade por sua manutenção econômica.

As demandas sociais do paulistano vêm se modificando, e torna-se necessário conhecer melhor essa população para que possamos empreender políticas adequadas de saúde.  As redes pública e privada de saúde na cidade de São Paulo não possuem dados sobre a prevalência de zumbido. Na verdade, essa informação é desconhecida até mesmo para a população brasileira, pela ausência de estudos epidemiológicos específicos. Assim sendo, a compilação, a análise e a disseminação dessas informações podem contribuir para delinear de forma precisa o perfil da população.

A nossa hipótese é que o zumbido seja uma queixa prevalente no município de São Paulo, com potencial morbidade e impacto na saúde das pessoas, particularmente em idosos. Assim, informações adicionais sobre sua frequência, intensidade de incômodo, repercussões nas atividades cotidianas e fatores de risco associados podem melhorar o atendimento primário e o direcionamento dos pacientes a setores de triagem, além de basear políticas de saúde pública e campanhas de prevenção. Além disso, fatores de risco coletados a partir de amostras populacionais podem levantar novas hipóteses fisiopatológicas e contribuir para avanços na terapêutica do zumbido. A determinação da prevalência de zumbido vai aumentar nosso conhecimento sobre o perfil do sintoma no município, favorecendo a implantação de novas políticas públicas de saúde. Sem uma estimativa real, é impossível planejar qualquer tipo de ação, incluindo a obtenção de recursos ou suporte para esses projetos.

Conhecer as informações sobre o perfil populacional da cidade de São Paulo é de extrema importância, visto que precisamos nos certificar de que a amostra final obtida após a coleta de campo e análise de nossos resultados seja realmente diversificada o suficiente, representativa de todos os estratos socioeconômicos e principais faixas etárias, proporcional ao tamanho populacional, e que mantenha a equiprobabilidade.

Objetivos

Este levantamento epidemiológico pretendeu:

  • Determinar a prevalência do zumbido na população adulta do município de São Paulo;
  • Descrever as principais características clínicas do zumbido nessa população;
  • Quantificar o grau de incômodo do zumbido na população.

Métodos

Este estudo epidemiológico observacional transversal foi conduzido entre abril e outubro de 2012, no município de São Paulo. O levantamento populacional para determinação da prevalência de zumbido na cidade de São Paulo foi realizado por meio da aplicação de questionário de campo junto à população, previamente elaborado para esta finalidade específica, adaptado e modificado a partir de dois estudos originais: o primeiro para determinação da prevalência de zumbido na população norte-americana, o segundo para estudo da doença de Menière na população do sudoeste da Finlândia.  Em publicação prévia determinamos a prevalência da tontura na cidade de São Paulo em 42%, usando este mesmo questionário. O projeto foi realizado em conformidade com as normas e diretrizes estabelecidas pelo Código Internacional de Práticas de Pesquisas Sociais e de Marketing da ESOMAR, e após aprovação  pela Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa (CAPPesq) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), protocolo de pesquisa número 0970/09. O projeto obteve financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP/Auxílio Regular à Pesquisa/Processo N.º 2011/10343-7).

Amostra

O tamanho da amostra foi calculado estimando-se uma prevalência esperada de zumbido na população de 15%, com precisão de 2%, intervalo de confiança de 95%, efeito do desenho de dois e 10% de aumento para possíveis perdas. O tamanho da amostra inicialmente calculado foi de 1.901 habitantes. Estimando-se três a quatro habitantes por residência, chegou-se ao total de 633 residências a serem visitadas. Estimou-se que 40 dos 13.193 setores censitários de São Paulo fossem randomicamente selecionados, oito em cada uma das cinco regiões da cidade (norte, sul, leste, oeste e centro). As cinco regiões foram incluídas para assegurar a diversidade da amostra, garantindo, assim, uma estimativa para todos os perfis socioeconômicos e principais faixas etárias. O sorteio do setor censitário foi proporcional ao tamanho populacional da região, para manter a equiprobabilidade.

Coleta de dados

Foi usada amostragem por conglomerado entre os diversos setores censitários. Para a seleção das residências a serem visitadas e coleta de dados, procedeu-se ao sorteio aleatório dos Setores Censitários. Dentro de cada um deles foram sorteados, randomicamente, um quarteirão e uma esquina. A partir dessa esquina alocada, as 16 primeiras residências foram consecutivamente visitadas. Toda adaptação e codificação do questionário populacional estruturado, realização de pré-testes, elaboração de cartões, de manual de campo e de material de controle, treinamento da equipe, sorteios dos setores censitários, trabalho de campo, entrevistas aplicadas pessoalmente em visitas domiciliares e análise estatística dos resultados coletados foram executados por empresa especializada em pesquisas de campo e com longa experiência no ramo, a Analítica Pesquisas Mercadológicas, Sociais e Econômicas Ltda.

Critérios de inclusão

Foram incluídos indivíduos maiores de 18 anos e de ambos os sexos. Na amostra do levantamento populacional todos os moradores de cada residência sorteada foram entrevistados. Caso em um mesmo terreno coabitassem duas ou mais famílias, cada uma foi considerada separadamente.

Critérios de exclusão

Usamos como critério de exclusão nas residências sorteadas: (1) moradores ausentes no momento da entrevista, que após três tentativas racionais de visitação não foram encontrados; (2) doentes e convalescentes; (3) os não residentes no domicílio visitado, entre eles parentes e/ou amigos de passagem e empregados domésticos que não residissem no local; (4) casas comerciais nas quais não residiam pessoas e casas desabitadas.

Variáveis do estudo

A medida de ocorrência foi avaliada pela relação entre o número de indivíduos com queixa de zumbido em relação ao número total de entrevistados. As principais variáveis preditoras avaliadas  foram sexo, idade, escolaridade, raça, ocupação, e suas relações com o zumbido, características do zumbido (constante ou não, incômodo ou não, interferência nas atividades diárias ou não), definidas como variáveis qualitativas. As variáveis quantitativas incluíram tempo de zumbido e o grau de incômodo do zumbido mensurado pela EVA (Escala Visual Analógica). A escala era graduada em cores que variavam do branco, passando pelos tons, azul, verde, amarelo, laranja, indo até o vermelho, e numerada de 0 a 10. O indivíduo foi orientado a atribuir uma nota de zero a dez para o incômodo provocado por seu zumbido, conforme utilizado por Figueiredo e ilustrado na figura 1. Solicitamos que se posicionassem com relação aos níveis de desconforto, ou seja, quanto mais perto do branco menor o desconforto, e quanto mais se aproximassem do extremo vermelho, maior o desconforto. A nota zero correspondia a “nenhum incômodo”, e a nota dez a “incômodo máximo”. O grau de incômodo foi classificado em: leve (1 a 3), moderado (4 a 7) ou severo (8 a 10), de acordo com a nota atribuída pelo paciente ao seu sintoma, numa escala de 0 a 10.

Análise estatística

As diversas variáveis pesquisadas foram submetidas à análise descritiva. A significância da associação entre as variáveis qualitativas e a medida de ocorrência, presença ou não de zumbido, foi determinada pelo teste do Qui-quadrado (x2). Para variáveis quantitativas foi aplicado o teste t de Student. As variáveis que apresentavam associação significativa com a medida de ocorrência (p < 0,05) foram submetidas a um modelo de regressão logística para verificar possíveis fatores de confusão da associação e identificar os fatores mais fortemente associados à presença e ao grau de incômodo do zumbido. Também foram calculados os intervalos de confiança de 95% para as estimativas produzidas (por exemplo, prevalência de zumbido).

Presença de zumbido

A prevalência da queixa referida “zumbido” na população da cidade de São Paulo foi de 22% (430 entrevistados), que responderam afirmativamente à pergunta “você tem zumbido nos ouvidos?”, vs. 78% (1.530 indivíduos) que negaram esta queixa. O sintoma acomete maior porcentagem de mulheres (26%), em relação aos homens (17%), diferença estatisticamente significante (Qui-quadrado de Pearson, p = 0,000). Também foi observado o crescimento progressivo da prevalência com o aumento da idade. A aplicação do Qui-quadrado de Pearson revelou significância estatística (p = 0,000) na avaliação da presença de zumbido pelos grupos de idade. Pelo prisma da faixa etária, o pico da queixa ocorre nos indivíduos com mais de 65 anos de idade (36%), e é três vezes maior do que a prevalência (12%) observada entre aqueles com 18 a 25 anos de idade (tabela 3). Não houve diferença quando considerados indivíduos fumantes (23%) e não fumantes (22%) (Qui-quadrado de Pearson, p = 0,581). Entretanto, ter ou não ocupação fora de casa mostrou-se um diferencial importante. A prevalência de zumbido entre indivíduos sem ocupação foi de 29%, em contraste com 18% daqueles que possuíam ocupação (Qui-quadrado de Pearson, p = 0,000).

Tempo de zumbido

Considerando os entrevistados que afirmaram ter zumbido (430 indivíduos, base reduzida), indagarmos “há quanto tempo tem zumbido?”. Observamos uma grande variação nas respostas. Algumas pessoas convivem com o sintoma há pouco tempo (40%, até três anos), outras há algum tempo (27%, três até dez anos), enquanto as demais quase a vida toda (22%, entre dez a 30 anos). Não localizamos na amostra qualquer prevalência considerada significativa, conforme tabela 4.

Grau de incômodo do zumbido

Com o intuito de entender melhor e mensurar o grau de incômodo do zumbido, aplicamos a Escala Visual Analógica (EVA) entre os entrevistados que relataram possuir o sintoma (430 indivíduos, base reduzida). Os percentuais observados foram: incômodo leve (11%), incômodo moderado (55%) e incômodo severo (34%). A média das respostas obtidas foi 6,3 ± 2,3 de desvio-padrão, enquanto a mediana foi 6.

Interferência do zumbido nas atividades diárias

Apesar da elevada prevalência de entrevistados que referiram se incomodar com o zumbido, quando questionamos “seu zumbido interfere em suas atividades diárias?”, constatamos que 82% responderam não, enquanto que 18% afirmaram que sim. Com relação aos 18% que referem que o zumbido interfere nas atividades diárias, não observamos diferenças entre as variáveis categóricas pesquisadas.

Discussão

Nosso estudo de campo populacional teve a intenção de estimar a prevalência do sintoma “zumbido” na população adulta da cidade de São Paulo. Este configura o primeiro estudo do gênero a ser realizado no Brasil. Trata-se de uma abordagem dispendiosa, já que as entrevistas foram feitas pessoalmente em domicílio, o que só foi possível graças ao apoio financeiro da agência de fomento FAPESP. Utilizamos como ferramenta a pesquisa de campo, na qual um investigador foi até o domicílio do investigado e aplicou um questionário diretamente ao indivíduo. Por ser o zumbido um sintoma subjetivo e de difícil mensuração clínica, insistimos em um treinamento intensivo dos entrevistadores na aplicação do questionário para que conseguíssemos caracterizar da melhor forma possível o sintoma referido. Sendo assim, precisamos considerar que as subjetividades de julgamento dos entrevistados, bem como a temporalidade das queixas relatadas, possam por si só serem consideradas elementos de viés.

A resposta “sim” à questão: “você tem zumbido nos ouvidos?” foi dada por 22% (430 indivíduos) vs. 78% (1.530 indiví- duos) dos entrevistados que negaram a indagação. Apesar da relevância clínica do sintoma, no Brasil não existem estudos epidemiológicos publicados que tenham determinado a prevalência de zumbido na população, e esta é estimada com base nos resultados provenientes de levantamentos populacionais de outros países. Mesmo considerando estes dados, os estudos que estimaram a prevalência do zumbido na população adulta (maior de 18 anos) são limitados, já que diferem entre si em inúmeros aspectos, o que torna difícil a comparação dos nossos resultados com os de outros autores na literatura internacional. De um modo geral, estes estudos epidemiológicos estimam que a prevalência do zumbido seja em torno de 10 a 15% da população adulta geral.

O índice observado em nossa casuística surpreende, pois está bem acima do valor estimado para a população nacional, e é elevado quando comparado à maioria dos levantamentos previamente publicados. Axelsson & Ringdahl, em 1989, observaram prevalência de 14,2%, sendo mais frequente em homens do que em mulheres). Em 2,4% dos casos, o zumbido foi relatado como incapacitante. Em estudo epidemiológico sobre problemas auditivos entre adultos na Itália, em 1996, Quaranta e colaboradores observaram que a prevalência de zumbido espontâneo prolongado foi de 14,5%.

Nondahl e colaboradores, em 2002, em estudo epidemiológico da perda auditiva nos Estados Unidos que avaliou indivíduos entre 48 e 92 anos de idade, determinaram a prevalência de zumbido em 8,2%. Fujii, em 2011, realizou no Japão estudo populacional com adultos, com idade entre 45 a 79 anos. A prevalência foi de 11,9%, sendo mais frequente em homens (13,2%) do que em mulheres (10,8%), e aumentou com a idade.

Em estudo populacional de campo realizado na Austrália por Sindhusake e colaboradores, em 2003, foram incluídos 2.015 indivíduos com idades entre 55 e 99 anos. De forma semelhante à nossa casuística, o autor considerou o fato de o paciente referir zumbido, sem se ater a fatores como tempo, frequência e ou severidade do sintoma para determinar sua prevalência. A prevalência de zumbido foi de 30,3%. Trata-se de um dos poucos estudos publicados na literatura apontando para uma prevalência elevada do sintoma, e um dos raros que se assemelham ao nosso. A principal diferença é que o autor considerou para análise apenas indivíduos idosos, enquanto em nosso estudo optamos por incluir uma casuística com faixa etária (18-80 anos) mais representativa da população.

O uso de diferentes critérios para definição do zumbido (zumbido no último ano, zumbido persistente por pelo me- nos três meses, zumbido prolongado, zumbido frequente ou sempre presente, zumbido há alguns anos, zumbido frequente e incômodo nos últimos anos, zumbido pelo menos moderado ou que interfere no sono); a faixa etária diversa (idosos, adolescentes); as características diferentes (trabalhadores e não trabalhadores, trabalhadores expostos a ruído e não expostos); e os métodos utilizados na coleta de dados (questionários enviados pelo correio, análise retrospectiva de base de dados de estudos populacionais) entre os vários estudos existentes na literatura dificulta comparações da prevalência entre populações. A prevalência maior em nossa casuística pode ter sido influenciada pelo fato de não termos restringido nossa pergunta a padrões específicos de tempo, frequência e severidade do zumbido por ocasião da entrevista; indagamos simplesmente pela presença do sintoma. Entre os entrevistados, dois terços da amostra referiram que o sintoma ocorria de forma intermitente. Tal achado pode ser respaldado por pesquisa de campo populacional realizada com 14.178 adultos norte-americanos, entre 1999 e 2004, para determinar a prevalência de zumbido naquele país. O estudo foi publicado por Shargorodsky e colaboradores em 2010, após análise de base de dados nacionais, e incluiu indivíduos com faixa etária entre 30 e 80 anos.

A prevalência de zumbido entre adultos norte-americanos foi de 25,3% quando considerada a presença de zumbido referido, independentemente da frequência ou medida de ocorrência, índice bem similar ao nosso; e de 7,9% quando considerados apenas os casos de zumbido frequente no último ano. Ou seja, a prevalência muda drasticamente dependendo dos critérios usados para considerar o zumbido.

No quesito gênero, dentre os que responderam “sim” à questão: “você tem zumbido nos ouvidos?” (22% – 430 indivíduos), observamos maior porcentagem de mulheres (26%) do que homens (17%), quando comparados aos entrevistados que responderam “não” à mesma questão (78% – 1.530 indivíduos). Os estudos populacionais são discrepantes quando se considera a questão gênero entre os indivíduos que referem zumbido. Alguns estudos mostram maior prevalência entre homens do que entre mulheres, mas esse fato não é visto em todos eles.

Poucos artigos na literatura se destacam por serem semelhantes ao nosso no quesito amostral (indivíduos adultos na população). Fujii et al., em 2004, investigando a prevalência de zumbido na população japonesa, observaram maior prevalência da queixa entre homens (13,2%) do que entre mulheres (10,8%). Os autores usaram como plataforma de estudo uma base de dados antiga de 31.552 residentes da cidade de Takayama com mais de 35 anos de idade, entrevistados em 1992 sobre questões demográficas. Em 2002, após excluírem os mortos e os que haviam se mudado, os autores enviaram pelo correio questionários perguntando sobre o zumbido, para que uma das três respostas possíveis fosse assinalada: (1) “Nunca tive zumbido”, (2) “Tenho zumbido”, (3) “Já tive zumbido”. O viés é que residentes novos ou aqueles que completaram 35 anos durante o intervalo de 10 anos do estudo não estão incluídos na amostra. E quando considerados os que responderam “Já tive zumbido”, a prevalência foi maior no sexo feminino (5,1%) do que no masculino (3,1%). Baigi et al., em 2011, selecionaram randomicamente 20.100 habitantes, a partir do registro nacional da população total (6.891.560 habitantes) da Suécia, limitando-se às idades de 18 a 84 anos, dentre os quais 12.166 indivíduos responderam ao questionário proposto. A pergunta formulada era “Você tem zumbido?”, com três possíveis respostas: (1) “Não”, (2) “Sim, com desconforto leve”, (3) “Sim, com desconforto intenso”. Foi realizada uma regressão logística para estimar a probabilidade de zumbido relacionada ao nível de estresse e ruído.

Segundo os autores, mulheres têm 40% menos riscos de apresentarem zumbido do que homens (odds ratio = 0,60); chance esta que foi observada para todas as faixas etárias. Shargo- rodsky e colaboradores, em 2010, após análise da base nacional de dados (1999 a 2004) de adultos (maiores de 20 anos de idade), nos Estados Unidos, observaram resultado semelhante. A presença de zumbido foi considerada a partir da resposta “Sim” à pergunta “Nos últimos 12 meses você teve zumbido nos ouvidos?”, seguida pela pergunta “Com que frequência?”. Foi considerado zumbido frequente aquele presente quase sempre ou pelo menos uma vez ao dia. A prevalência de zumbido foi maior entre homens (26,1%) do que entre mulheres (24,6%). Contudo, como a base nacional de dados continha intencionalmente idosos, americano-mexicanos e negros super-representados, não pôde ser considerada uma amostra simples da população americana. Após ajuste multivariado para tornar a base representativa para generalizar os resultados para a população, a prevalência de zumbido mostrou-se maior em mulheres, quando considerada apenas a presença de zumbido, independentemente de ser ou não um sintoma frequente (OR 1,28). Portanto, após o ajuste, mulheres possuíam 28% mais chances de ter zumbido do que homens. Em 2005, Hannaford e colaboradores, através de questionário enviado pelos correios a 12.100 residências na Escócia, realizaram levantamento que incluiu 15.788 entrevistados maiores de 14 anos de idade. O percentual de resposta aos questionários foi de 64,2%. A prevalência de zumbido (persistente por mais de cinco minutos) foi de 17%. Os autores observaram que, nos indivíduos com menos de 45 anos, a prevalência foi maior entre mulheres (13,3%), chegando a ser quase duas vezes maior que a observada no gênero masculino (7,1%); fato que se inverte, progressivamente, acima de 45 anos.

Similar a outros relatos sistemáticos na literatura, que descrevem a idade como um fator de risco bem definido para o desenvolvimento de zumbido, também observamos um crescimento progressivo da prevalência deste sintoma com o aumento da idade. O pico da queixa ocorre aos 65 anos de idade, e é três vezes maior do que a prevalência observada para os mais jovens. O fato pode ser facilmente explicado pela exposição ao ruído ao longo da vida e ao próprio envelhecimento do sistema auditivo, com consequente aumento das queixas relacionadas à orelha interna. Segundo Baigi e colaboradores (2011), cada ano a mais de idade aumenta em 3% o risco de zumbido, apesar de o risco observado em nossa casuística ser alarmantemente maior do que o descrito por estes autores.

Outra característica importante observada em nossa casuística foi o fato de o entrevistado ter ou não ocupação. A prevalência de zumbido entre indivíduos sem ocupação foi quase duas vezes maior do que a observada entre aqueles com ocupação. Resultado similar foi observado por Hasson e colaboradores em 2010, ao descreverem a prevalência dos distúrbios de comunicação na população geral empregada e desempregada na Suécia, as e correlações com gênero, idade, condição socioeconômica (CSE) e ruído. Os autores demonstraram associação significante entre a CSE e a prevalência de problemas auditivos, incluindo zumbido. Podemos inferir que indivíduos sem ocupação devem ser aqueles com CSE mais baixa; e, portanto, os mais susceptíveis à exposição a ruído (estresse mecânico à orelha interna), por assumirem hábitos pouco saudáveis quanto à proteção da audição em ambientes ruidosos ou ficarem expostos a ruído excessivo durante longos períodos. São ainda clinicamente mais vulneráveis pelo elevado nível de estresse associado à sua condição (estresse emocional).

Recentemente, foi demonstrado que as condições precárias de saúde estão diretamente relacionadas à maior prevalência de zumbido, e que o estado emocional pode atuar como modulador do sistema auditivo.  As vias de estresse emocional envolvem tanto à ativação do sistema simpático com estimulação de receptores a-adrenérgicos na cóclea, quanto a resposta neuroendócrina primária destinada a estabelecer o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA).

As pesquisas atuais sugerem que o estresse agudo protege a cóclea, enquanto que o estresse crônico é danoso para a audição. A importância do eixo HPA na preservação da audição está respaldada por ensaios clínicos que mostram que pacientes com zumbido apresentam sinais de seu comprometimento associado ao elevado grau de percepção de estresse, quando comparados a pacientes sem zumbido.

Temos que lembrar ainda que, entre aqueles sem ocupação, prevalecem idosos, e, como dito acima, o zumbido é três vezes mais frequente nesta faixa etária.

Quando questionados sobre as características do sintoma referido “Esse zumbido é constante, ou seja, você percebe todos os dias?”, um terço dos indivíduos afirmou ter zumbido constante, enquanto os dois terços restantes tinham zumbido intermitente. Surpreendentemente, o zumbido constante foi mais prevalente entre homens do que entre mulheres. Essa ocorrência também foi descrita por Shargorodsky e colaboradores em 2010, que observaram zumbido frequente (zumbido presente quase sempre ou pelo menos uma vez ao dia) mais prevalente em homens do que em mulheres (OR 0,92).

Ao questionarmos sobre o incômodo do sintoma “Esse zumbido incomoda?”, observamos que dois terços da população que refere zumbido, seja constante ou não, incomodam-se com o sintoma. Até então, estimava-se que esse percentual fosse bem menor, pois segundo Jastreboff, apenas um quarto dos indivíduos que tem zumbido procura auxílio médico e, sendo assim, o percentual observado em nossa casuística (64%) mostrou-se totalmente inesperado. Este percentual foi significantemente maior em mulheres do que em homens, indicando uma maior sensibilidade no sexo feminino.

Aos que responderam “Sim” à pergunta acima, tomamos o cuidado de quantificar este grau de incômodo usando a EVA (“Aponte no cartão o quanto o seu zumbido incomoda”), método rápido e de fácil compreensão, utilizado quando se deseja aferir sintomas subjetivos em larga escala. Foi surpreendente perceber que a grande maioria (89%) possui grau de incômodo moderado a severo. A média das respostas obtidas usando a EVA foi de 6,3. Desconhecemos outro estudo de campo na literatura que tenha feito este tipo de medida para caracterizar o zumbido na população, mas nos parece um valor bem elevado, baseando-se em expectativas e estimativas de grau de incômodo do sintoma.

Perguntamos ainda “Seu zumbido interfere em suas atividades diárias?”, e quase 20% da população que tem zumbido e se incomoda referem que “Sim”. Não encontramos estudos na literatura que respaldem estes números. Fujii e colaboradores, em 2011, considerando o sintoma na população japonesa, observaram que 20% a 30% relataram percepção do zumbido durante as horas de vigília, e que aproximadamente 0,4% da população total refere zumbido que afeta severamente a capacidade de levar uma vida normal.

Gopinath (2010) determinou que a incidência de zumbido durante observação de cinco anos na população australiana foi de 18%. Em 55,5% dos casos novos, o zumbido era referido como incômodo leve, em 6,5% moderadamente incomoda e, em 1,3%, incômodo severo; perfil este que mudou após cinco anos naqueles em que o zumbido persitiu, com 39,6% referindo incômodo moderado e 5,9% severo.

Apesar de os resultados de Gopinath (2010) não serem diretamente comparáveis, já que o desenho do estudo é diferente, ainda assim estes percentuais ficam bem abaixo do observado em nossa casuística.

O presente estudo avaliou a prevalência de zumbido na população adulta da cidade de São Paulo. Trata-se do primeiro e maior estudo deste tipo já feito no Brasil e, considerando que a maioria dos demais relatos da literatura internacional foi baseado em questionários enviados pelo correio, estamos diante de uma amostra populacional mais fidedigna e representativa. A elevada prevalência de zumbido observada em nossa casuística, somada às previsões alarmantes da OMS sobre a ascensão dos problemas auditivos em curto prazo, sinalizam para a seriedade do problema. Parte deste crescimento exponencial pode ser explicada pelo envelhecimento da população, assim como pelo aumento da exposição ao ruído nos países de rendas média e alta, como a cidade de São Paulo. Para que haja reversão desta tendência negativa em nossa comunidade, é preciso que intervenções preventivas sejam implementadas e ajustadas em níveis individual e organizacional, tornando-se premente o desenvolvimento de estratégias e campanhas no sentido de prevenir, retardar ou minimizar o seu impacto atual e futuro na comunidade.

Conclusão

O zumbido na população da cidade de São Paulo mostrou-se mais prevalente do que o previamente estimado. De modo geral, acomete mais frequentemente mulheres, aqueles sem ocupação e aumenta significantemente com o avançar da idade. A maioria dos entrevistados refere incômodo com o zumbido, sendo tal fato mais prevalente no gênero feminino. O grau de incômodo aferido pela escala visual analógica apontou zumbido moderado, com média das respostas obtidas de 6,3.

Agradecimentos

Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cér- vico-Facial (ABORL-CCF), Gestão do Prof. Dr. Ricardo Ferreira Bento – Edital para Bolsas de Auxílios a Projetos Epidemiológicos; e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) / Auxílio Regular à Pesquisa / Processo N.º 2011/10343-7.

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Jeanne Oiticica é otorrinolaringologista, graduada em Medicina pela Universidade Federal de Alagoas (1998). Possui doutorado em Otorrinolaringologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP-2005). Atualmente, é chefe do Grupo de Pesquisa em Zumbido do HC-FMUSP, médica assistente do departamento de Otorrinolaringologia da FMUSP, chefe do Laboratório de Investigação Médica (LIM 32) do Hospital das Clínicas da FMUSP, responsável pelo Ambulatório de Surdez Súbita do Departamento de Otorrinolaringologia da FMUSP. Site: http://jeanneoiticica.site.med.br/

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Juliana Tavares

Juliana Tavares é jornalista, empreendedora, editora de conteúdo e diretora de atendimento da j2 Comunicação. É, ainda, colaboradora da Eaxdesign, em portais de negócios, comportamento, inclusão social e turismo.

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